São Paulo, 29/08/2019 – Luis Stuhlberger, dono da Verde Asset Management – o gestor administra o maior fundo multimercado do Brasil – não tem explicação exata por que, a cada ano que passa, o número de papéis emitidos por governos com taxa de juros negativa cresça de maneira assustadora. Pondera que a tecnologia promove a deflação e consequente queda dos juros. E, com isso, conforme avaliou em entrevista à coluna Direto da Fonte e ao Broadcast, cada vez mais as pessoas vão preferir ativos reais, como o ouro, enquanto o dinheiro deve perder valor. Em poucas décadas, uma possível solução para resolver o problema fiscal da economia internacional seria “um grande Plano Collor mundial”, em alusão às medidas do ex-presidente Fernando Collor de Mello que limitaram saques bancários pela população no início dos anos 90.
Sobre o Brasil, Stuhlberger afirmou que se fosse perguntado, há seis meses, sobre as chances de o governo aprovar uma reforma da Previdência com economia fiscal perto de US$ 1 trilhão, ele diria que a probabilidade era zero. Para o gestor, também “foi um milagre” a privatização da BR Distribuidora “sem greve, sem bloqueio de entrada”, uma evidência de que “coisas importantes” estão acontecendo na economia brasileira, apesar do estresse recente do mercado. Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Broadcast: Porque os juros estão caindo para níveis tão negativos nos países desenvolvidos?
Stuhlberger: Ninguém tem uma explicação exata, mas acredito que entre as razões principais está a inflação baixa e o crescimento também não é grande. As pessoas estão usando mais a tecnologia e a tecnologia é deflacionista, todos os tipos de tecnologias são deflacionistas, diminui as margens. E mesmo com a tecnologia, as economias estão gerando emprego. Os Estados Unidos é a mais forte delas, gerando 150 mil empregos por mês. O Japão, por exemplo, tem o desemprego mais baixo do mundo. Há ainda os programas de relaxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês), que começaram no Japão em 2002 e se acentuaram após a crise de 2008 na Europa e nos EUA. Esse fenômeno começou a jogar o juro longo para baixo. Isso era restrito ao Japão, e aí EUA e Europa entraram forte.
Broadcast: Além da política monetária, o que os países desenvolvidos podem fazer para as economias crescerem mais?
Stuhlberger: Os países emergentes têm que equacionar suas dívidas, mas nos desenvolvidos a situação é diferente. O Japão deve 200% do PIB [Produto Interno Bruto], mas o juro sobre isso é zero. Aí começa a ter a possibilidade de se usar estímulos fiscais, que é o que os Estados Unidos estão pensando em fazer e a Europa também. Vamos gastar muito mais para fazer a economia crescer e, naturalmente, gastando muito mais a necessidade de financiamento será maior, mas a gente mesmo compra os nossos títulos, então podemos gastar mais para ter um PIB maior.
Broadcast: Quais ativos comprar neste ambiente de juros negativos?
Stuhlberger: Os governos vão imprimir dinheiro, vão gastar mais, e os bancos centrais comprando títulos, até um dia que você vai acordar e pensar que uma parte muito significativa do dinheiro no mundo, o dono desses títulos é o próprio banco central daquele país. Aí você vai se perguntar do que vale o dinheiro. Aí vem aquela teoria, eu não quero mais dinheiro, eu quero ter ativos reais, como o ouro. No Japão, 43% da dívida está com o banco central, na Europa, é 22% e agora pode ir para 33%.
Broadcast: Quem são os maiores perdedores com os juros negativos?
Stuhlberger: As famílias mais ricas. Aquele 1%, 2%, 3% da população mundial que tem a riqueza. No limite, para quem não é muito rico, para a classe média mundial, que tem algum dinheiro no banco, tem algum patrimônio, mas tem dívidas, então essas pessoas são beneficiadas por conta dos juros muito baixos. Os juros altos, dos rentistas, que é o que aconteceu no Brasil por 26 anos seguidos, favorece os mais ricos. Isso não é tão ruim no curto prazo, porque você vai expropriando dinheiro das pessoas ricas. Tem dois jeitos de o mundo resolver os seus problemas fiscais: a conta-gotas, perdendo um pouquinho por ano, ou em um dia. Eu inventei uma nomenclatura. Essa história vai acabar como? Ela vai acabar num grande plano Collor mundial.
Broadcast: O ex-presidente Collor vai ficar feliz…
Stuhlberger: Um dia você vai acordar e vai no banco dizer que quer tirar seu dinheiro. E aí os primeiros 50 mil euros ou dólares você leva, o resto, vai virar um bond de 100 anos e você pode pegar este título e vender no mercado secundário. Neste dia, longínquo, longínquo, você vai ter um QE elevado à enésima potência. Todo mundo vai perder, vai perder quem tem ouro, quem tem terra, vai perder quem tem bitcoin. Mas a questão é: quem vai ganhar ou perder menos. O dinheiro vai perder quase tudo, como sempre foi na história da humanidade, certo?
Broadcast: Nesse cenário o dinheiro deixa de ter valor?
Stuhlberger: O meu pensamento é que o dinheiro é o que mais vai se perder. E em todo o resto, terras, ouro, ações, você vai se virar, perdendo menos.
Broadcast: Como avalia a reforma da Previdência que está no Senado?
Stuhlberger: Se você me dissesse há 6 meses que nós íamos aprovar uma reforma da Previdência de quase um trilhão de reais [de impacto fiscal], eu ia dizer que a chance era zero. Acho que agora no Brasil estão acontecendo coisas importantes. O Brasil vai ser solvente, essa MP da Liberdade Econômica, as ideias econômicas são boas, já as outras ideias do governo, obviamente…
Broadcast: O ministro Paulo Guedes vai bem, né?
Stuhlberger: Isso. E não é só o Paulo Guedes, é o [presidente da Câmara, deputado] Rodrigo Maia também.
Broadcast: Acredita na aprovação da reforma tributária?
Stuhlberger: A reforma tributária não é fácil de passar, porque têm conflitos entre setores da economia, mas há muito tempo que a gente não via isso acontecer no Brasil. Você já viu uma privatização de uma BR Distribuidora sem greve, sem atacar todo mundo, sem bloqueio de entrada? Isso é um milagre. Mesmo a reforma da previdência. Olhando o exemplo dos argentinos, em algum momento, para se perpetuar, temos que ter crescimento, a volta do PIB, emprego, que se isso não acontecer até 2022…
Broadcast: Falando da Argentina, como a crise lá afeta o Brasil? Mostra que temos que crescer rapidamente?
Stuhlberger: Não diria rapidamente. A Argentina está numa situação muito ruim há muito tempo. Você não pode comparar o estado da economia brasileira com a da Argentina, que tem problemas crônicos porque tem o peronismo desde os anos 1950. Então a economia argentina é muito frágil, é toda dolarizada, desindustrialização total.
Broadcast: Mas se o Brasil não crescer como aconteceu lá…
Stuhlberger: Temos que crescer. Mas de outro lado, esse governo argentino é quase impossível de escapar de um default, de mais inflação, controle cambial. Ou seja, a esquerda na Argentina, lá em 2022, será um governo que a situação vai piorar em relação ao que está hoje, não tem como melhorar. Há um lado bom para a gente, do tipo, olha onde a esquerda vai nos levar se voltar ao poder.
Broadcast: O que fazer para o PIB do Brasil crescer mais?
Stuhlberger: Acho que o PIB brasileiro ainda não está nem mostrando o potencial. Com uma Selic de 5%, com inflação de 3,5% [ao ano], o benefício que isso vai nos dar é imenso, em termos de desenvolvimento.
Broadcast: O crédito está lentamente retomando?
Stuhlberger: Lentamente. Mas é melhor que seja lentamente, porque todas as coisas que são muito rápidas [podem trazer problema]. O Brasil não está crescendo muito porque a capacidade de recuperar o investimento – lembra que o investimento era feito pelo governo, pelo BNDES, pelas empreiteiras. Leva tempo para sair desse buraco. Mas todos os indicadores de Brasil são bons. Essas emissões de debêntures incentivadas, começamos em 5, 10, 20, esse ano vai ser 50, as empresas estão se desalavancando, tomando dinheiro no mercado. Os R$ 6 trilhões que estavam no CDI vão ter que ser investidos.

